domingo, 26 de agosto de 2007

"Tire as sandálias dos teus pés"


Ao retornar depois de seis anos fora de Garça, pude contemplar com mais dileção um pouco de cada esfera que se apresenta quase que diariamente perante meus olhos. Hoje em especial,
quero desenvolver esta crônica para exaltar o que tanto anda me alegrando.

São eles, os IPÊS, floridos e amarelos.
Assim, posso ver como a minha cidade é bela.

Quando estava distante, a cada retorno meu recebia dessa terra belos lampejos de alegria; mas agora, curvo-me, reverencio-me diante da magnitude de nossas ruas. São os ipês, as árvores que considero sagradas. São misteriosos o bastante, para abrigar gente de todo tipo, sem perder a exuberância de suas flores caídas.Ah! E essas flores caídas, convertem-se em relicários, como fragmentos do divino que abençoa a cada um dos errantes.

Que gritem em auto-falentes, que rompam tímpanos e que seja executada tal ordem, todos nós homens e mulheres de Garça: "Tirem as sandálias dos pés, pois o lugar onde pisam é santo". Sim, são santas todas as nossas ruas que procriam a árvore da nobreza, que vingando tanto em quanto, sejam em avenidas, frente de escolas, butecos, estrada de chão batido. Em qualquer lugar, estão elas, parecem que combinaram de florir mais aqui nesta cidade do que qualquer outra. parecem que quer colorir nosso caminhos. E por que será? Acredito que se lhes fossem permitidos sentir, sentiriam o mesmo que sentimos quando chegam os domingos frios e bate aquele saudosismo louco e inconsequente, que nos fazem vibrar, despetalar, despadecer.

Estou intuitivamente concordando com os ipês, que florescem cedo demais, que desabrocham antes mesmo da primavera. Concordo com eles, é necessário dar o mais belo no momento mais cinza, mais frio e mais gélido, nas manhãs mais surdas e nas tardes mais taciturnas.

Agora, eles estão suspirando. É chegada a hora do fim. Quase tudo está consumado. findam as calçadas colorias. Findam as árvores do chão. Vingam-se no devir da criação.

Fico sem respostas quando me pergunto:"O que pode levar algumas almas a varrerem nossas calçadas enfeitadas?", "Será que consideram sujeira a bênção mais sutil do fim do outono?" É o "Corpus Cristhi" da natureza, na trajetória do nosso dia-a-dia.
Ao contrário do que podemos imaginar, elas continuam caindo, desfolhando, uma por uma. Na mais perfeita dinâmica botânica. E tudo isso "pra gente viver mais".

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

VIDA E MORTE DO PEQUENO PRÍNCIPE.


Depois de passado o tempo, tomei forças para pôr em palavras o que vem me incomodando. O que aconteceu é que vi a morte de um príncipe. Um que me cativou e fez com que minha vida ficasse cheia de sol. Não era grande este principezinho, era pequeno, ousado, responsável por um reino “que não é deste mundo”.
Era o “Amado”, o nosso Amado: O irmão Luiz Carolino. Padre, pastor de parte do rebanho Garcense. É urgente que seja dito o que sei a respeito desse principezinho. E não quero que o faça com pompas e honrarias, e sim na mais modesta simplicidade franciscana.
Talvez eu seja uma das pessoas que mais tenha o que escrever a respeito desse nosso confrade. Eu, que provenho de uma família católica, e que passei quase seis anos em Convento Franciscano, e que também me consagrei religiosamente a vida e Regra dos irmãos pobres de Assis; também fui o primeiro paroquiano a ver o corpo de nosso padre, serenamente deitado, ainda no leito do hospital, logo depois de sua alma abraçar a irmã morte.
Em parte sei o que frei Luiz vivia em sua vida pastoral; pois uma parcela de sua caminhada eu também já havia percorrido. Rezávamos as mesmas orações, tínhamos os mesmos superiores, observávamos os mesmos votos, estudávamos os mesmos livros; mas, ao mesmo tempo ele estava bem distante de mim. Era sacerdote, e amava profundamente este seu ministério. Diferente de mim, que não me adaptava a idéia de ser algum dia clérigo. Para mim, bastava-me a consagração religiosa, sendo que para ele o desejo de conduzir o povo como pastor era algo vibrante e tão intenso que a cada homilia deleitávamos com seu amor incondicional com cada um de nós.
Era o nosso “Amado”. Para alguns: carente, para outros: contundente, para outros ainda era demasiado em suas homilias. Mas era o nosso pastor. O nosso Amado. Nosso pequeno frade que não se cansava de enfeitar a Igreja para festas do Santo Natal, de Páscoa, Pentecostes. Quem nunca admirou o presépio dos franciscanos? Frei Luiz, em sua temporada , cá em Garça colorio nosso ponto turístico, nossa casa de irmãos, nossa casa de oração.
Mesmo demonstrando-se preocupado com o fato de ser como era; ele “era”. Era o diabético que comia pudins, era o doente mais despreocupado, o cansado mais ocupado. Era tão inconstante. E isso o mantinha vivo, e o mantém vivo em mim. Era um pouco do ‘agridoce’ da minha vida. Meu pequeno príncipe, filho de Grande Rei. Sacerdote pra sempre, segundo o rei. Integrante da nobre estirpe. Esposo da Igreja e da Pobreza.
E o que nisso me incomodava? O que me incomodava, era o que me inveja em poucas pessoas, em grandes santos, em raros nomes; o que nele me incomodava era o fato dele ser fiel em suas convicções. Era o fato dele ter descoberto que o “paraíso é ser perfeito”. Era o fato dele ser “Eternamente responsável” por aquilo que cativa. Essa nobre delicadeza diante da própria história, que causa em mim a ‘santa inveja’ das mais humanas possíveis.
Poderia escrever ainda sobre o funeral, sobre crônicas e reportagens que saíram a respeito do seu falecimento. No entanto, quero ser o mais subjetivo possível, e retratar o que senti quando o vi morto, ainda no leito do hospital.
Era por volta das 13h00, quando uma paroquiana chegou pra visitá-lo, mas já era tarde demais. Eu estava no segundo andar do Hospital São Lucas, meu local de trabalho, em horário de almoço. Fiquei pasmo diante da notícia. Fui até o quarto, onde ele se encontrava só. Ele morrera sozinho. Talvez, rezando uma prece. Serenamente.
Contemplava-o. Daquela fisionomia lia-se, o seu “Seja Bem-vinda, Irmã Morte!” Um silêncio sepulcral tomou conta daqueles instantes. Foi quando trocamos ele de leito. Arrumei seus pertences e desci para meu local de trabalho. Fiquei do jeito que só eu sei como fico: transcendentemente apático. E foi assim que fiquei, no velório, na missa de corpo presente. Como se tudo o que me passasse fosse um fragmento de uma realidade muito maior.
Aos poucos foram chegando ao hospital dezenas de fiéis, que se lamentavam a morte do cativante Luiz Carolino. Eu mesmo fui quem ligou para o frei Cláudio, logicamente depois passei a ligação para as enfermeiras responsáveis. Acreditava que eu poderia ser mais humano e sereno para aquele irmão desejoso de notícias.
O fato dele ter morrido sozinho, fixou em mim centenas de perguntas, pensamentos, que até hoje não consigo concluir. Desconfio intimamente que a solidão nos últimos instantes; representavam o mesmo abandono na cruz, que Jesus sentiu antes de entregar seu espírito as mãos de Deus.
E o fato de usar o livro de Saint-Exupery como inspiração pra essa crônica, não é a toa. Era pois o livro mais comentado pelo nosso amado “frei”. É pelo motivo de vê-lo como esse personagem, que apareceu de mansinho e que cativou nossa fé, amizade, compreensão. É pelo fato dele ter morrido de repente e do anseio que ele tinha pelo céu. É o fato dele saber que só o desconhecido espanta os homens, mas para quem o enfrenta ele cessa de ser desconhecido. “Louvado sejas meu Senhor pela irmã Morte corporal, da qual nenhum vivente pode escapar”.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Um Cego (feito por mim)

Felicito-te a cegueira
Que agora em ti mantém
Antes, porém bizarro
Usava óculos endiabrado
Gritavas rimas por um vintém

És o relicário do meu passado
Nunca jures amor por outrem
Rubra o céu em que tu estás deitado
Exuma o corpo de seu amado
Olhe pra mim, e não lembre de mais ninguém.

Recorte a idéia de voltar a enxergar
Vida boa dessas, só mesmo o cego tem
Ouse colar novos tampões nos olhos
Coisa besta querer enxergar
Enxergar que do meu amor,
Só me restou o seu desdém!